A VIDA DE LUIZ GONZAGA:
- Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu no dia 13 de dezembro de 1912, na Fazenda Caiçara, povoado do Araripe à 12km de Exu, filho de Januário José dos Santos e Ana Batista de Jesus (Mãe Santana). Foi batizado na matriz de Exu no dia 05 de janeiro de 1913, cuja celebração batismal, foi realizada pelo Pe. José Fernandes de Medeiros. Desde sua infância o pequeno Gonzaga namorava o fole de oito baixos, instrumento este, executado por “Pai Januário” no qual começou seus primeiros acordes.
Em 1950 o Lua recebe dos paulistas o título de “REI DO BAIÃO” que o consagra até nossos dias. Neste mesmo ano “Lua” grava também a toada ASSUM PRETO e os baiões QUI NEM JILÓ e PARAÍBA, Gonzaga neste período está no auge de sua carreira. A música PARAÍBA foi gravada por uma cantora japonesa Keiko Ikuta, e também pela Emilinha Borba. Em 1951 Luiz Gonzaga coroou a cantora Carmélia Alves como a “RAINHA DO BAIÃO” na Rádio Nacional, no programa “NO MUNDO DO BAIÃO” de Humberto Teixeira e Zé Dantas. No ano de 1952 Luiz Gonzaga tentou projetar para todo o Brasil, nos festejos juninos o talento musical da família através das rádios Tupi e Tamoio tendo como atração, OS SETE GONZAGAS: Seu Januário, Luiz Gonzaga, Severino Januário, José Januário (Zé Gonzaga), Chiquinha Gonzaga, Socorro e Aloísio. Em 1953 grava ABC DO SERTÃO, VOZES DA SECA e a A VIDA DO VIAJANTE. Neste mesmo ano Luiz Gonzaga assume plenamente sua identidade nordestina, começando a usar o gibão de couro. No dia 09 de julho de 1954 mataram em Serrita Raimundo Jacó, primo de Luiz Gonzaga. Em 1959 Dona Marieta, mãe de Dona Helena, veio a falecer no Rio de Janeiro. O Rei do Baião não parava, andava por todo o País cantando e decantando o Nordeste. No amanhecer do dia 11 de junho de 1960, Dona Santana, mãe de Luiz Gonzaga, falecia no Rio de Janeiro, com a doença de chagas.
Quando foi para o Rio de Janeiro sofreu muito lá.O Rei do Baião faleceu no dia 02 de agosto de 1989, às 5:15min da manhã no Hospital Santa Joana, em Recife. Foi na Veneza Brasileira que Luiz Gonzaga dava seu último suspiro. Seu corpo foi velado na Assembléia Legislativa de Recife nos dias 02 e 03 até às 9:45min da manhã, foi velado também em Juazeiro do Norte.
Luiz Gonzaga
foi relevante na cultura nordestina tendo grande influencia nela.As festas
juninas representam um dos elementos culturais do povo nordestino. Essa festa é
composta por música caipira, apresentações de quadrilhas, comidas e bebidas
típicas, além de muita alegria. Consiste numa homenagem a três santos
católicos: Santo Antônio, São João e São Pedro. As principias festas juninas da
região Nordeste ocorrem em Caruaru (PE) e Campina Grande (PB).Outro elemento
cultural de extrema importância no Nordeste são os artesanatos. A variedade de
produtos artesanais na região é imensa, entre eles podemos destacar as redes
tecidas, rendas, crivo, produtos de couro, cerâmica, madeira, entre outros. A
culinária nordestina é bem diversificada e se destaca pelos temperos fortes e
comidas apimentadas. Os pratos típicos são: carne de sol, buchada de bode,
sarapatel, acarajé, vatapá, cururu, feijão verde, canjica, tapioca, peixes,
frutos do mar, etc. Também são comuns as frutas ciriguela, umbu, buriti, cajá e
macaúba.
ENTREVISTA:
Nove meses
antes de morrer, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, deixou gravada uma conversa de
mais de uma hora com dois repórteres pernambucanos. Vários trechos desse
depoimento permaneceram inéditos por longo tempo. Veja a íntegra da entrevista
e saiba porque ela não foi publicada antes.
Essa
entrevista foi concedida ao jornalista Marcos Cirano e ao fotógrafo Pedro Luiz,
num apartamento do bairro de Boa Viagem, Recife, a 17 de outubro de 1988,
portanto nove meses e 16 dias antes da morte de Luiz Gonzaga. Originalmente,
ela serviu de base para uma reportagem sobre um novo disco do compositor,
publicada pelo jornal carioca O Globo. Em maio de 1989, alguns trechos da
entrevista também foram publicados pelo Suplemento Cultural do Diário Oficial
de Pernambuco. Mas, a íntegra do depoimento permaneceu inédita por muito tempo.
A entrevista
de Gonzagão é comovente. Em vários momentos, ele chora, ao reconhecer que já
não tem saúde para ficar de pé sem o auxílio de duas muletas. Faz um balanço da
sua carreira artística. Canta trechos de músicas do seu novo disco. Critica o
duro jogo de interesses do mercado fonográfico. E decide assumir, através da
imprensa, o romance que manteve em segredo por 13 anos com sua última mulher,
Edelzuíta Rabelo, a dona do apartamento onde a entrevista aconteceu: "Pode
botar aí no jornal que o charme da minha vida agora é Edelzuíta!"
A pedido de
Edelzuíta Rabelo, que queria evitar atritos com a primeira esposa de Gonzagão,
Helena das Neves (ainda viva na época), a entrevista não foi publicada na
íntegra. Fato que só aconteceria mais tarde, através do Pernambuco de AZ, após
a morte de Helena. Com a palavra, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião:
Marcos
Cirano - São 50 anos de carreira. E aí?
Luiz Gonzaga
- Eu acho que corri, corri, corri e acabei parando em casa.
MC - O
senhor ta trabalhando um novo disco, né?
LG - É, todo
mundo trabalha. Esse disco tem, realmente, uma grande importância para mim.
Porque, mesmo que eu não quisesse parar, eu agora to condenando a isso, né,
embora eu tenha a intenção de fazer tudo pra continuar. Porque, quando a gente
cria, a gente tem obrigação de fazer cultura pra preservar as tradições, pra
contar sua própria história. Porque, senão, ninguém vai querer contar, com a
mesma empolgação, com o mesmo amor, com a mesma garra que eu sempre dediquei,
de uma maneira completamente diferente, procurando sempre as estradas, sempre
os caminhos em busca das cidades onde eu tinha certeza que existia uma colônia
forte de cabeças-chatas esperando por mim. Então, aí eu instalei, instalava
minhas tribunas. Estivesse onde estivesse: no noroeste, no oeste, no sul, em
São Paulo, no sul do sul... Onde eu ia, encontrava as colônias nordestinas.
Saudosas colônias sem administração, sem mando, furando novas...vamos dizer
assim, procurando se apossar de um pedacinho de terra, um meio de vida
melhor... E eu cantava pra eles, lá onde estivesses, as canções mais bonitas,
as mais fortes, as mais tristes, que fazia todo mundo chorar... meu objetivo
não era esse, mas acontecia. Às vezes, eles choravam com uma coisa alegre que
eu cantasse. (Gonzagão tenta, mas não consegue prender o choro)
MC - Nesses
50 anos de carreira, o senhor fez tudo o que teve vontade? Na música e nas
andanças.
LG - Só não
fiz porque, naturalmente, meu talento não dava. Mas, enquanto meus companheiros
achavam que as minhas idéias eram boas, a gente fazia juntos. Fora aquelas que
eles criavam para mim... Humberto Teixeira, Zé Dantas. Antes deles, Miguel de
Lima. Depois, Zé Marcolino, aqui do sertão, que morreu recentemente em desastre
de automóvel... Então, assim, eu fiz, modéstia à parte, um grande acervo que
ainda não está exposto, mas está em Exu, esperando a oportunidade de ser
exposto no Museu Luiz Gonzaga.
MC - O que
está faltando para esse acervo ficar exposto?
LG - Ta
faltando administração, eu sou péssimo administrador. Material tem até
sobrando, que dá até pra três museus. Mas, museu, no Brasil, parece palavrão...
A minha intenção é de ajudar a imprensa e os pesquisadores que, quando
precisarem escrever algo sobre Luiz Gonzaga, sobre Humberto Teixeira, Zé
Dantas, meus outros excelentes companheiros como Onildo Almeida, Janduhy
Filizola, ambos de Caruaru, então vocês vão ter condições de pesquisar capas de
LPs, LPs, reportagens... Eu quero oferecer isso para você que tá me procurando
aqui hoje e que é jovem, daqui há algum tempo você vai a Exu e lá você encontra
tudo, todo acervo do Rei do Baião, fácil, fácil, palpável, e escreve o que você
quiser. Não sobre mim, mas sobre o Nordeste, sobre as músicas que eu criei.
Gonzagão
pára um instante, depois prossegue:
Descobri o
Nordeste musical, musicalmente falando. Não foi o Nordeste, foi o Sertão. O
Nordeste sempre teve os seus carnavais, suas festas tradicionais para exibir as
suas canções. Mas, eu esbarrava sempre, no Rio de Janeiro, para vencer, contra
tudo e era barreira quase invencível. De vez em quando, aparecia um seresteiro,
como Augusto Calheiros e mais alguns, que, através de suas vozes, eles contavam
as coisas engraçadas do Nordeste, como Manezinho Araújo.
Mas, não com
a boa intenção que eu me apresentava, em cima de caminhão, levando o
patrocinador nas costas, fazendo espetáculos nas praças públicas, improvisando
espetáculos em determinadas praças...
Agora, tudo
isso por quê? Porque eu não me achava bastante suficiente para concorrer com
ninguém. Eu tinha que levar minha música diretamente àqueles que ignoravam
totalmente o Nordeste. É claro que os colegas compareciam e coloriam o
ambiente. Mas, o objetivo era cantar para os barrigas-verdes, os gaúchos, os
caipiras, os cariocas. E conseguia, quase sempre, patrocinadores. Então, eu
tinha liberdade. E assim, no meio desse público, eu era acolhido de surpresa
até...
Ali no meio
desse público tinha Caetano, tinha Gil, tinha muitos cantores doidos por aí,
famosos hoje, que já mudaram de roupa várias vezes, hoje são até roqueiros, mas
mesmo como roqueiros continuam afirmando que Luiz Gonzaga o influenciou, o
influenciaram. E eu tava dando uma de Deus, escrevendo certo por linhas tortas.
Totalmente despreparado mas, quando eu soltava alguma coisa, eles sentiam que
tinha um sabor tão especial que não dá nem pra se lembrar qual a sua origem. E
eu levava as coisas que aprendi na minha infância, com meu pai, as piadas do
velho Januário, que meu pai era muito espirituoso. E fui me tornando um artista
assim, espontâneo. Atingi praticamente todas as camadas sociais, cassinos etc.,
mas nunca me empolguei pela a cidade grande e a saudade do Nordeste sempre foi
eterna. Hoje, graças a Deus, bem sucedido, menos com a saúde, continuo cantando
com graça o meu forró. Como, por exemplo (recita):
Tô doidim
pra me deitar naquela cama
To doidim
pra me cobrir com teu lençol
Doidim pra
te matar de cheiro
Juntar os
travesseiros
Soprar o
candeeiro e começar nosso forró
Esses versos
vão ser gravados agora, são de uma música de João Silva e Luiz Gonzaga, do meu
último LP. Nem decorei ainda, porque eu só péssimo decorador até das minhas
próprias coisas. É uma mão-de-obra desgraçada! O nome dessa música é Vou te
matar de cheiro. Quer dizer, uma linguagem dessa, meu filho, pra um cara que
vem do mato... Isso sempre foi a minha primazia.
MC - Essa
música é do novo disco que o senhor vai lançar?
LG - Essa
música é do próximo LP. Até doente eu boto tempero e graça nas minhas coisas.
MC - Esse
próximo disco já está todo pronto?
LG - Ta todo
arrumado aí, as músicas feitas, mas a doença e a preguiça não me deixam fechar.
Mas, como eu tô sentindo um cheiro de melhora... Eu tenho horas que eu sofro
muito, porque eu tô sofrendo de uma doença chamada... (Gonzagão não consegue
pronunciar a palavra osteoporose e pede auxílio a sua companheira Edelzuíta:
como é o nome da danada da doença? Venha cá, você não pode ficar longe de mim,
não, porque você é a minha memória)... Ela vem me atacar os ossos, justamente
os que foram fraturados ao longo da minha carreira. Essa doença me ataca,
tirando o meu rebolado e o meu charme. Meu charme agora é Edelzuíta. (A
companheira de Gonzagão interfere: "Não bote isso aí não, que vai dar
confusão", mas ele insiste: Bote no jornal que o meu charme agora é ela, o
amor de minha vida).
MC - Os
acidentes que o senhor sofreu foram muitos. Alguns até acabaram virando música.
Quantos acidentes foram?
LG -
Ih!...Já perdi a conta. Fraturei dez costelas, fraturei a clavícula, fraturei o
crânio e, agora, essa osteoporose está me derrubando. O primeiro acidente foi
em 1951, foi aquele de Santos, que o carro mergulhou de uma ponte de uns quinze
metros, com todos nós dentro. Deu até uma música de Zé Gonzaga, meu irmão
(canta): E Luiz Gonzaga não morreu... De lá pra cá, foram mais uns quatro ou
cinco acidentes. Mas, o que eu andei mais perto da morte foi esse que me
fraturou aqui (aponta para o lado direito da testa). Eu fiz duas operações,
porque atingiu o olho, mas acabei cegando dele. Isso foi na estrada de Miguel
Pereira. Gonzaguinha tava comigo e o anão Salário-mínimo também. E a maior
vítima foi eu. Mas escapei com vida. Isso foi em 1962, parece. (Gonzaga fica
alguns instantes em silencio, depois continua): Mesmo assim, ainda me sobrou
algum charme pra encontrar uma mulher bonita e inteligente pra tomar conta de
mim.
MC - A
osteoporose, o senhor vem sentindo desde quando?
LG - Ela só
foi localizada agora, aqui no Recife. O primeiro ataque dela foi no fêmur. E é
por isso que eu estou usando essas gonzaguetes (mostra as duas muletas que
utiliza para andar, ainda assim com bastante dificuldade). E dizem que fêmur é
bicho muito atrevido, até hoje ninguém encontrou medicina que o dominasse.
MC - Faz
mais ou menos um ano que o senhor vem sentindo os sintomas da doença?
LG - Não,
isso faz muito tempo. Mas, eu só vim me interessar depois que comecei a sentir
a obrigação de usar muletas. Agora, vem de muito antes.
MC - Eu me
lembro que, durante algumas apresentações na televisão, o senhor sempre estava
aparecendo sentado, pra poder segurara a sanfona
LG - Pois é,
pois é. E nem sanfona eu toco mais, não dá mais. Eu já não gravo com sanfona há
mais de dez anos. Depois que eu comecei encontrar sanfoneiros capazes, tocando
melhor do que eu (e Dominguinhos foi o primeiro) e esses sanfoneiros começaram
a declarar que eu tinha sido seu incentivador, seu mestre, aí eu digo: e o que
é que eu tô fazendo aqui tocando sanfona de graça, se minha voz vale muito mais
do que minha tecla? Aí, passei a usar esses meninos me acompanhando, com muito
mais arte, mais graça. Ora, se nessas alturas, eu já passei a ser conhecido
como um afortunado de tantos dotes dados por Deus, nada melhor do que
distribuir com aqueles que estavam seguindo meu caminho com honestidade. Tem
Oswaldinho, Dominguinhos, Valdones de Fortaleza, um garoto de 15 anos tocando
magistralmente, um garoto rico e bonito. O Valdones tem até um estúdio em casa,
o pai faz todas as vontades dele, o garoto ta numa carreira bonita. Quer dizer,
por isso eu acredito que o forró não vá morrer. O baião não morreu, o forró,
feito do baião... Então, eu acredito que essa música vai pra frente. Porque o
Nordesta dá isso, oferecendo sua graça. Sábado agora, eu botei cerca de vinte
mil pessoas no Spázio, uma verdadeira festa, muito bonita, feita especialmente
pra mim. Estavam lá Fagner, Elba Ramalho, Genivaldo Lacerda, Gilberto Gil,
Dominguinhos, Alcimar Monteiro que ta indo muito bem, Jorge de Altinho...
Luiz Gonzaga
e o pai Januário dos 8 baixos.
Pedro Luís -
Jorge de Altinho andou sumido um tempo, né?
LG - Não,
Jorge de Altinho é o mesmo. É porque, de repente, o forró
tornou-se...é...demasiadamente oferecido. Quer dizer, várias fábricas... A
minha fábrica, por exemplo, gravou esse ano seis discos de forró. Então, é
muita oferta. Mas, Jorge de Altinho sempre foi um cara pra frente e irá muito
mais. Como ele é jovem, ele pode mudar para onde quiser. Mas, ele é fiel ao
forró.
MC - O seu
novo disco vai ser lançado quando?
LG - Logo
depois do carnaval, que é quando se começa a lançar forró, uma música
sugestiva, uma música quente, cheia de graça. Depois do carnaval até junho é
com nós. Nós ocupamos o miolo do ano.
MC - A
partir de quando, mesmo, não deu mais para o senhor segurar a sanfona?
LG - Eu
vinha tocando, porque ela sempre foi o meu apoio e eu sempre gostei. Porque eu
criei um estilo. Mas, além desses problemas que eu sofri,me apareceu uma doença
na coluna, as viagens muito prolongadas, horas e horas viajando de automóvel. E
eu ia controlando. Quando eu perdi o rebolado, mesmo, que localizei o
problema... demorei um pouco... eu disse: vou dar uma de professor, vou avisar
a meus colegas pra ter muito cuidado com o peso da sanfona.
Vá ver que
quase todo sanfoneiro está hoje meio corcunda. Porque eu criei uma arte muito
pesada. Nós não temos condições, aqui no sertão, de pagarmos orquestras nem
instrumentos eletrônicos. E a sanfona é um instrumento do ar livre e ela
resolve um baile a noite inteira, gostosamente, com o seu próprio som. E os
caboclos sanfoneiros, forrozeiros, gostam muito do seu trabalho e tocam a noite
inteira, incarriado. Estão entrando num cano deslumbrante, como dizia aquele
pernambucano que escrevia no jornal sobre futebol, humorista, que escreveu
peças de teatro, que é irmão de Mário Filho, jornalista primoroso...
Como era
mesmo o nome dele? Isso, Nelson Rodrigues. Ele foi quem criou esse termo cano
deslumbrante. Eu entrei num cano deslumbrante. Então, foi isso. Essa doença,
que tá aumentando cada vez mais em nós, a coluna vertebral, que trouxe também
para mim. Aí, eu não podia mais com o peso da sanfona. Fazia um ensaiozinho,
uma coisinha, mas vinha logo a dor.
MC - O
senhor lembra qual foi o último show em que o senhor tocou?
LG - Não, eu
não gosto de lembrar. Porque, só de lembrar, eu sinto dor. (Gonzagão baixa a
cabeça, faz cara de choro e fica alguns instantes em silêncio).
MC - A
sanfona pesa quantos quilos, normalmente?
LG - Quando
eu comecei a tocar, o peso normal dela era de 12 quilos pra cima. Aí, eu passei
a prestigiar a sanfona nacional, porque eu tinha acesso à fábrica e lá eu dava
as minhas idéias. Naquela altura, nós tínhamos uma espécie de umas 12 fábricas
de sanfona. Hoje, só temos uma e se arrasta. E eu dizia: "Olha, gente,
deixo um pedido aqui do velho sanfoneiro e tal... Nós estamos usando
instrumento errado, com o peso discoforme para o nosso físico, pra o nosso
clima, principalmente para nós, nordestinos, que é que mais usamos sanfona.
Manera no peso. Eu quero mandar fazer uma sanfona aqui com nove, dez
quilos..." E consegui, eles fizeram. É tanto que todas as capas dos meus
discos são com fotos de sanfonas brasileiras. Mas, a sanfona de Dominguinhos
pesa 16 quilos. E eu falo com ele: "Te cuida, Dominguinhos! Você é
grossinho, mas vai afinas as pernas, vai entortar as pernas."Ta
entortando. É muito peso, sabe?
Então,
quando eu mi vi cantando sentado, eu aproveitava e fazia um pouco de apologia à
sanfona e caía, justamente, nessa questão aí. Sim, porque os italianos eram os
fabricantes de sanfona, não são mais, hoje já caíram fora. E o clima deles, já
viu como é que é, né?... Clima frio. As comidas deles são saborosas, cheias de
força. O físico deles é diferente, são sempre parrudos, mais do que nós... Por
que, agora, a gente vai carregar o peso deles também? Isso eu falo no palco,
quando estou bem disposto. Ou, quando tô sentindo dores, falo com raiva, né.
Deus me deu
o dom de falar, com a minha própria linguagem, despreocupado, sem medo de
errar, porque o povo já sabe que eu não sou intelectual, então eu mando brasa.
(Gonzagão ri gostosamente).
MC - Onde
fica essa fábrica brasileira de sanfona?
LG - A única
fábrica de sanfona, hoje no Brasil, fica no Rio Grande do Sul. Hoje, só tem a
Universal. Essa fábrica não é dotada de bons técnicos. A que mais evoluiu foi
uma chamada Todesquini. Mesmo assim, não agüentou, porque queria vender muito
instrumento e não dava. Chegaram as guitarras eletrônicas, sanfonas eletrônicas
e tal...
MC - Dá pra
dar uma geral sobre o que vai ser o seu novo disco?
LG - Não, dá
não. Porque eu só venho a decorar, mesmo, depois de gravar. É uma preguiça
lascada.
PL - Será
que é outra doença, essa preguiça?
LG - Não, é
não... Eu vou gravar uma música conhecida, chamada Estrada de Canindé... Não...
É, deixa lembrar... Sertão de Jequié, que foi gravada por Dalva de Oliveira.
(Gonzagão canta. Primeiro, confunde a letra com os versos de Estrada de
Canindé. Depois, acerta a letra e canta Sertão de Jequié inteira). Essa música
é de Cléssio Caldas e Armando Cavalcanti, dois carnavalescos do Rio de Janeiro,
que me deram dois grandes sucessos: um foi Boiadeiro, que é meu prefixo e
sufixo (cantarola) e me deram outra também muito bonita, chamada Meu cigarro de
palha (canta). Eu cantava também, mas nunca gravei, vou gravar agora.
MC - Nunca
gravou Meu cigarro de palha?!
LG - Não,
não... peraí... Nunca gravei Sertão de Jequié.
MC - Além de
Sertão de Jequié, o resto do disco é tudo músicas novas?
LG - É. Tem
uma de Antônio Barros, que eu gostei muito, chama-se Coração de pudim: Meu
coração é feito de manteiga ou de pudim/Molim, molim, molim, molim/Falei com
esse sujeito pra não me deixar assim/Molim, molim, molim, molim... É uma música
de Antônio Barros, aqui de João Pessoa. Ele me deu também outro forrozim muito
gostoso, chamado Lagoa do Amor (cantarola alguns versos).
MC - Com
esse disco a ser lançado no próximo ano, são quantos discos gravados durante os
50 anos de carreira?
LG - São 55.
Com esse que vai sair, são 56. (Gonzagão comenta o disco que gravou com Fagner.
Pergunta a Edelzuíta se ela quer ouvir uma faixa, pede que a companheira
coloque a faixa que mais gostou e ela escolhe Amanhã eu vou. Enquanto todos, na
sala, escutam a música, Gonzagão cantarola baixinho e de cabeça baixa. No
final, reage): Ô véio enxuto da molesta! Tô com 76 anos nas costas, com 74 eu
gravei isso aí. Nunca fumei, apesar de gostar muito daquele cheiro; de fazer
propaganda de fumo... Mas, pra que fumar? Só pra imitar os outros?!
MC - E
beber?
LG -
Beberiquei algumas besteirinhas. Adorava uma cerveja lascada. (Dirigindo-se ao
fotógrafo Pedro Luiz, Gonzagão pergunta): Você é de onde?
PL - João
Pessoa.
LG - Tinha
que ser! Com essa cabeça de cangaceiro.
MC - Além do
disco novo, quais os outros planos?
LG - Viver
mais um pouco. Só. Show, mais não. Depois daquele show de anteontem! Foi uma
coisa! Quinze ou vinte mil pessoas, e eu sentado lá no palco, vendo tudo isso e
sem poder participar. Eu cantei Tropeiro da Borborema, que é uma das coisas
mais bonitas de Raimundo Asfora, mas o bom da gente é a gente se sentir em
condições de criar mais e ter a impressão que amanhã a gente pode criar um
sucesso consagrador... Mas, eu já criei os meus, Asa Branca, Vozes da Seca,
Baião, Luiz Respeita Januário... Pra onde é que eu vou mais? Eu me sinto
completamente realizado. Mas, eu não gostaria de sair assim, carregado porque
não tenho mais pernas. (Gonzagão fica alguns instantes e silêncio).
MC - Não tem
mais pernas, mas tem uma grande voz. Vai ficar aí parado?
LG - Não,
ainda tenho que fazer mais dois discos, por contrato. Além desse que vai sair o
ano que vem, tem outro que ta pronto há dois anos e tudo indicava que ele não
ia sair. Mas, só que tive uma coragem de leão em abandonar a RCA Victor aos 28
anos de serviço, 48 anos, 14 de março de 1941, quando eu entrei lá. Saí como um
protesto e esse disco estava guardado lá, no fundo do baú. Terminei botando
tudo pra fora, porque senti que a minha fábrica atual pode ganhar muito
dinheiro com isso e eu não me incomodo que uma gravadora boa ganhe muito
dinheiro comigo. Eu ganho o meu pouquinho e fico satisfeito, não chamo ninguém
de ladrão. Eu quero é vender meu peixe.
MC - Por que
o senhor deixou a RCA?
LG - Olha, é
uma história tão escrota, tão podre, que eu nem gosto de contar. E eles estão
aí, com três discos meus na praça: o Aí tem, o álbum e esse Amanhã eu vou.
Então, eu vou ganhar uma nota muito boa e não quero dar uma de menino
mal-agradecido, não tenho mais idade pra isso. Eu quero é me dar bem com as
duas (gravadoras), eu quero é as duas brigando por minha causa. E a RCA vai
levar vantagem, porque ela tem 48 anos de repertório meu. E a outra vai
começar... Talvez isso seja até ruim, três discos na praça... A nova gravadora
é a Copacabana, que foi muito leal comigo, foi tão bacana comigo. E eu desejo
que as duas ganhem muito dinheiro comigo.
MC - Nenhum
projeto para programa de televisão, apresentações?
LG - Nada,
nada.
MC - Tá
encerrando, mesmo? Uma vez, Dominguinhos disse que o senhor vai morrer no palco
e que essa história de despedida era conversa, pois ele já tinha participado de
um show de despedida sua, na década de 50.
LG - Em
1953? Será possível? Isso é conversa fiada, é o Dominguinhos me gozando.
(Gonzagão dá uma gargalhada e pergunta): Já terminou? É, você sabe escrever, e
aí vai dar pra você fazer sua reportagem.


Legal, aguardo outras postagens.
ResponderExcluirOtimoo! ficou massa.... *-*
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